Física Quântica para Pensar – “Eu” e Meus Relacionamentos Com o Mundo em Geral

Esse é o aspecto indivíduo, ou partícula, da pessoa que sou, a porção de minha identidade que está em diálogo comigo mesma ao longo do tempo. Mas também sou uma pessoa que se relaciona com as outras, e dentro de uma interpretação quântica do ser, tais relacionamentos também definem minha identidade. Portanto, para conhecer plenamente a pessoa que sou, devo compreender os relacionamentos que sou — o aspecto onda de meu ser.

Obviamente, a saúde e o funcionamento de nosso corpo, inclusive nosso cérebro, dependem da qualidade do alimento que ingerimos e de muitos fatores mutáveis de nosso ambiente externo. Da mesma forma, nosso ser, pensamentos e comportamento são continuamente influenciados pelos pensamentos e comportamentos dos outros, pelos membros de nossa família, pelos amigos e colegas. Somos influenciados pela cultura em geral — pelos livros que lemos, filmes a que assistimos, música que ouvimos etc. Muito da imagem que fazemos daquilo que somos depende do contexto geral de nosso ser e, em grande parte, essas influências não são um mistério.

Meu relacionamento com os outros parece ser, sob muitos aspectos, uma extensão de meus relacionamentos com os subseres de meu próprio ser, que qualquer linha divisória definitiva entre EU e os outros, entre o eu e o não-eu, não será de grande significado. Não há modo claro de se saber onde termina o “eu” e onde começa o
“você”. Na linguagem da física quântica: “Deve-se concluir que os sistemas macroscópicos estão sempre correlacionados em seus estados microscópicos.

Vendo-se o ser e seus relacionamentos sob um ponto de vista mecânico-quântico, abre-se um espectro de relacionamento e de comunicação entre o ser e os outros que vai do diálogo íntimo (sobreposição de funções de onda) entre subseres de meu próprio ser, passa pela ligação íntima entre eu e você com todas as variações e sabores possíveis e chega até a ligação que dá a alguns grupos a sensação de terem a mesma “cabeça” ou o
mesmo “coração”.

Fincando suas raízes na dualidade onda—partícula e na realidade de ondas e partículas, a noção de um ser quântico que é tanto ser-em-si-mesmo como ser-para-os outros abre um caminho novo através da conhecida dicotomia entre ver o ser como tudo ou vê-lo como nada. Em seu “aspecto partícula” o ser quântico revela uma significativa integridade individual e, no entanto, através de seu “aspecto onda”, revela-se simultaneamente em relacionamento com outros seres e com a cultura como um todo. Isso dá a base tanto para a identidade pessoal e a responsabilidade pessoal quanto, ao mesmo tempo, para a intimidade e a identidade grupal. Sugere também uma nova forma de ver toda a questão da sobrevivência pessoal após a morte.

Mas, se estabeleço um compromisso com os outros (ou com a natureza ou com algum valor espiritual), eu me torno mais entrelaçada (mais unida) a eles através de uma espécie de repetição. A cada dia, de vários modos pequenos e grandes, renovo meu relacionamento com o outro, talvez por mais contatos e mais experiências partilhadas, pela memória e reflexão, ou ainda pela influência que meu comprometimento exerce sobre outros aspectos de meu pensamento e de meu comportamento.

Repetidamente levo o outro para dentro de mim, reforçando, assim, padrões de excitação no substrato quântico de minha consciência, e, a cada repetição, o ser do outro vai se tornando mais uma parte do meu próprio ser, mais entrelaçado a outros aspectos desse meu ser. Nossas identidades se sobrepõem e nossas características pessoais tornam-se mais correlatas. Tanto o relacionamento quanto eu mesma crescemos. “Eu” me torno um ser extenso, uma parte muito maior daquele eu-e-você.

Como a base do compromisso é, em seu nível mais primordial, um sentido de estar “em casa” com o outro, um sentido de que ele é “algo parecido comigo”, a facilidade com que estabelecemos um compromisso pessoal é muitas vezes maior nos casos em que já existem alguns atributos comuns — os membros de nossa família com os quais partilhamos tendências genéticas e um grande conjunto de experiências comuns, membros de um mesmo grupo ou de uma mesma cultura, com os quais partilhamos hábitos, linguagem e padrões de pensamento.

Algum trabalho ativo é necessário para os relacionamentos se sustentarem e se aprofundarem, mesmo em nosso grupo ou cultura. Isso pode assumir a forma sutil de uma adoção ou renovação de certos valores cultivados pelo grupo ou cultura — admiração por conquistas físicas ou mentais, desejo de ajudar outros que não vão tão bem quanto eu, valorização da liberdade pessoal etc., — ou pode ser expresso por intermédio de um comportamento mais organizado.

A observância de rituais, aniversários e feriados, a repetição de hinos nacionais, orações, canções escolares ou estribilhos de torcida, a reverência por símbolos como bandeiras, rainhas ou presidentes, a leitura do mesmo tipo de literatura ou mesmo o gosto por certos programas de televisão — todas estas coisas estabelecem padrões na consciência que nos levam a uma correlação mais profunda com os outros de nosso grupo ou nação. Rituais semelhantes, porém particulares, existem e são observados por casais ou famílias. Na medida de nossa maior ou menor participação deles, nós nos sentimos mais ou menos alienados, mais ou menos vazios.

Nossa relação com os seres e os valores (mundos) que criamos é uma relação de co-autoria. Trazemos nosso ser e nosso mundo à existência por intermédio de uma resposta criativa, partilhada, face ao mundo e um face ao outro. Isso produz um novo conceito quântico de “subjetividade partilhada”, uma subjetividade que está em diálogo com o mundo e que, através desse diálogo, faz surgir a objetividade. É o relacionamento entre observador e observado transferido do laboratório de física para a esfera moral através da natureza quântica de nossa consciência.

(Extrato do Livro o Ser Quântico – Danah Zohar)

Publicado por: Gildásio Starling

Gildásio Starling
Administrador de Empresas com Pós-graduação em Administração Financeira e Investimentos, Pesquisador de Ciência Lilarial do Dakila Pesquisas.

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