Física Quântica Para Pensar – “Eu” e meus Relacionamentos com as Minhas Escolhas

Nos processos quânticos, a probabilidade de que algo aconteça está associada à quantidade de energia exigida para fazê-lo acontecer. Se um elétron pode se transferir para uma camada de energia no átomo com muito pouco dispêndio de energia, e para um outro nível com grande dispêndio de energia, há muito maior probabilidade de que ele faça a transição de baixa energia. Ele é livre para fazer qualquer transição, nada é determinado, mas é muito provável que ele escolha a opção mais fácil. E assim ocorre também conosco, embora por sermos muito mais complexos que os elétrons, os fatores que influenciam as exigências energéticas de nossas várias escolhas também são mais complexos.

Como pessoa quântica tenho natureza e essência. Tenho um corpo, tendências genéticas, experiências e reflexões sobre essas experiências, tenho caráter e sou em grande parte definida pelos relacionamentos que estabeleço com os outros. Todas essas qualidades causam impacto em minha memória quântica, naquele ponto de encontro indeterminado entre o ser que sou e o ser em que estou me tornando — aquele ponto onde são feitas as escolhas. E a natureza desse impacto é que ele influencia as probabilidades de minhas escolhas. Toda a história e constituição de meu ser aumentam a probabilidade de que eu faça certas escolhas e diminuem a probabilidade de fazer outras.

Como seres quânticos, nós nos construímos à medida que vamos indo, tecemos a trama de nosso ser por meio do diálogo contínuo com nosso passado, com nossa experiência, com o meio ambiente e com os outros. Uma parte importante desse diálogo são as razões que atribuímos às várias escolhas que poderemos fazer, e como elas se encaixam no contexto total de nossas vidas e daquilo a que damos valor. Portanto, embora as razões em si não determinem as escolhas que fazemos, elas desempenham um papel vital quando se trata de tornar algumas escolhas mais prováveis que outras. As razões especiais que ligamos a qualquer conjunto de escolhas possíveis influenciam a probabilidade de fazermos alguma escolha em especial.

A razão ligada à possível escolha de deixar de fumar é a de que isso prolongará minha vida; a razão ligada a não deixar de fumar é a de que isso me dá prazer. Mas, dada a associação destas razões com aquelas escolhas, é mais provável que eu decida parar de fumar. A associação entre razão e escolha torna as escolhas corretas mais fáceis, menos exigentes de energia, ela faz a balança pender, mas não garante o resultado desejado.

No processo de viver, pensar e relacionar-se, estamos reforçando ou modificando as probabilidades de que nossas escolhas tenham este ou aquele resultado em particular. Estamos viciando os dados quânticos e canalizando a direção de nossa liberdade. Cada escolha que faço tem influência sobre a próxima que farei, pois aumenta ou diminui a probabilidade desta escolha. Nenhuma das minhas escolhas, não importando quão diminuta ela seja, está despida de significado para o resto de minha vida.

A natureza quântica de nossa consciência torna tentador fazer escolhas que exijam um mínimo dispêndio de energia, a menor concentração. E por esse motivo é que somos por natureza criaturas de hábito e imitação.

O hábito é uma espécie de carona, exige muito pouco esforço mental. Tendo feito algo de uma forma uma primeira vez, tendo feito uma escolha em especial, é muito mais fácil repetir a mesma coisa e, portanto, a probabilidade de que isso aconteça é maior. Nesse sentido, deveríamos usar o melhor de nossas faculdades mentais para avaliar o valor dos hábitos que estamos adotando ou as qualidades daqueles que estamos imitando. A escolha original que leva a um hábito talvez nos custe pouco, mas depois, se quisermos quebrar o hábito, a tarefa poderá tomar proporções hercúleas.

Assim, quando ajo baseado num hábito, não ajo livremente, nem estou exercitando minha criatividade. Sendo uma atividade de baixa energia, o hábito bombeia muito pouca energia para o cérebro. Ele, por assim dizer, provoca o colapso de poucas funções de onda. Por isso é algo tão pouco criativo e por isso as criaturas de hábitos experimentam crescimento psíquico tão diminuto.

O mesmo se aplica a deixar que nossas ações brotem da conformidade com os códigos de comportamento vigentes ou da adesão a códigos de dever rigorosamente definidos. A escolha inicial de seguir tais códigos exige alguma concentração, embora não muita, se já estivermos parcialmente definidos quanto aos costumes sociais e relacionamentos que os fundamentam. Mas, uma vez feita a escolha, podemos continuar a viver de uma forma que vicia as probabilidades contra qualquer forma de comportamento que, para ser adotada, exigiria as qualidades de um herói.

Nenhum de nós pode ser herói em todos os momentos da vida e, enquanto os costumes vigentes ou os códigos de dever aos quais subscrevemos forem basicamente razoáveis, a necessidade de heroísmo individual pode ser evitada sem dano a nós mesmos ou aos outros. Se nossa aceitação dos costumes vigentes provém de um compromisso (que é uma decisão que se renova, com energia, repetidamente), e não de um mero hábito, então a própria conformidade pode ser uma maneira criativa de viver.

Ela ajuda a manter uma cultura e um modo de vida. Mas, devido à nossa liberdade essencial e devido à responsabilidade que nos é imposta por essa liberdade, qualquer um de nós poderá, a qualquer momento, precisar se tornar herói. Quando nossos hábitos revelam-se nocivos a nós mesmos e aos outros, ou quando nossa lealdade ao dever nos envolve em algum comportamento que sabemos ser moralmente errado, somos compelidos a nos tornar heróis, compelidos a fazer o esforço de agir contra o peso da probabilidade.

Ao decidir, finalmente, entre minhas duas opções, estou decidindo entre dois seres que poderei me tornar e entre os diferentes mundos que eles poderão ocupar. A escolha é livre, nada a determina. Embora o caráter que construí e o tipo de vida que vivi até então pesem sobre as probabilidades de escolher um ou outro, eu posso — e muitas vezes o faço — agir “por uma questão de caráter”.

Igualmente, os meus argumentos acerca da sabedoria de uma escolha em vez da outra na verdade não determinam a escolha em si. Não digo a mim mesma que dou valor a meu casamento e aos compromissos dele decorrentes e, portanto, escolho contiuar sendo fiel a meu marido, nem digo a mim mesma que dou valor ao romance e à espontaneidade e, portanto, escolho o caso com meu amante. Estas são explicações casuais que simplesmente não se harmonizam com minha liberdade. (Não é minha lógica que cria minhas escolhas, mas minhas escolhas que criam minha lógica.)

Da mesma forma, só quando articulo os valores que me levaram a escolher meu marido ou meu amante é que me torno uma pessoa com esses valores, a qual tem o caráter para mantê-los e a história que a levou até eles. Mas, ao me descobrir criativamente dessa forma, também estou descobrindo criativamente os valores que nutro. Eu trago tais valores para o mundo, ou os reencarno, dando assim nova vida e sentido a valores antigos. Desse modo, ajudo a criar meu mundo e o dos outros.

Se eu escolher a fidelidade (e todos os seus valores auxiliares), minha escolha age aumentando a probabilidade de que outros farão a mesma escolha. Meu ser está entrelaçado e em correlação não-local com os outros de meu grupo ou sociedade, e as decisões morais que eu tomo ressoam pelo mundo que partilhamos, o mundo que criamos juntos. Se escolho quebrar meus votos de casamento, faço com que seja mais provável que outros tomem a mesma decisão, que mais famílias sejam dissolvidas, que a instabilidade social aumente etc. Não há fim para a corrente de influências que parte da minha decisão. Sou responsável pelo mundo porque ajudo a fazê-lo.

Se a escolha foi boa, o mundo do qual ela é co-autora será enriquecido, terá uma nova coerência ordenada que poderei articular dizendo algo assim: “Finalmente coloquei ordem na minha vida”. Mas somente quando vejo os resultados de minha escolha, quando consigo enxergar e articular o significado de minha escolha (seu significado tanto para mim como para todos com quem me relaciono) é que aquilo se torna, historicamente, uma escolha boa ou má. Seu caráter de boa ou má escolha vem ao mundo quando seus resultados puderem ser pesados (articulados) na balança de uma criação de mundo bem ou malsucedida.

O valor de descobrir os significados atribuídos às minhas escolhas é o de que a descoberta (essa articulação) leva-me de volta àquele momento de liberdade no qual fiz a primeira escolha, o momento de decisão que levou a uma corrente de decisões que, por sua vez, se tornaram parte do meu estilo de vida e daquilo a que dou valor — meu mundo. Voltando àquele momento, volto à possibilidade de fazer alguma outra escolha, algum outro ser e mundo. Esse é o motivo pelo qual a psicoterapia ou qualquer outro processo de auto-analise podem nos dar a possibilidade de “renascer”. Esse “renascer” significa começar de novo, com a promessa de uma vida completamente diferente daqui em diante e também de um mundo completamente diferente. Está associado aos temas religiosos de renovação e renascimento — a Páscoa cristã, a Páscoa dos judeus — que oferecem a promessa de uma nova vida.

Nossa liberdade fundamental, o fato de a escolha que fizemos ser apenas uma dentre as muitas que poderíamos ter feito, é o que torna esse renascimento possível, e dá a cada indivíduo um papel central na evolução gradual da consciência — o gradual aumento de holismo relacional ordenado manifesto nos mundos que criamos.

(Extrato do Livro o Ser Quântico – Danah Zohar)

Publicado por: Gildásio Starling

Gildásio Starling
Administrador de Empresas com Pós-graduação em Administração Financeira e Investimentos, Pesquisador de Ciência Lilarial do Dakila Pesquisas.

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